terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dona Maria da Fonte 
não é mulher como as mais,
traz um cinto de pistolas
para matar os Cabrais.

Viva a Maria da Fonte.
com a sua lança na mão
para matar os Cabrais
que são falsos à nação.

Trinta dias tem o mês,
três oitavas o Natal,
três ladrões tem este reino,
Rainha, Saldanha e Cabral.

Na ponta das baionetas
é que o povo jura a lei,
ou o rei há-de ser povo
ou o povo há-de ser rei.

O ladrão do Cabral
quer esmagar o povo
mas a Maria da Fonte
vai a pôr governo novo.

Viva a Maria da Fonte
com suas esporas de prata,
a cavalo na Rainha
com o Saldanha à arreata.

sem autor identificado
(a propósito do papel das mulheres durante a Revolta da Maria da Fonte, no Minho em 1846) in Cancioneiro Popular Político, Elvas, 1906.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta

Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão

domingo, 1 de dezembro de 2013

Jamais Te Amei Tanto

Jamais te amei tanto ma soer
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque engoliu-me, o bosque azul ma soer
Sobre o qual ficavam sempre as estrelas pálidas
No oeste.
Eu ri bem pouco, não ri, ma soer
Eu que brincava ao encontro do destino negro -
Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo ao anoitecer do bosque azul.
Tudo foi belo nessa tarde única, ma soer
Jamais igual, antes ou depois -
É verdade que me ficaram apenas os pássaros
que à noite sentem fome no negro céu.

Bertolt Brech