segunda-feira, 15 de agosto de 2016

perdi alguém pelo caminho
estou sempre a perder coisas.

não. mentira 11
Não, os touros não são pretos
por serem pintados com tinta.

mentira 10
- "O que é esta pequena fracção de tempo, - do sofrimento,
quando temos a vida toda pela frente?
Tanta vida?"

mentira 9
o sul subiu.

mentira 8
a segurança social é uma cabra
não, não é
as cabras são lindas
e dão grandes saltos
(além disso, marram
coisa muito útil nos dias de hoje).

mentira 7



(...) "E anti-naturalmente
Passearmos de mão dada
Os nossos belos corpos nus
na areia grossa da praia". (...)

mentira 6

uma vespa picou-me a mama
por cima do soutien,
do vestido
e do saco-cama.

mentira 5
o problema da nomeação

um conjunto de premissas
para resolver determinado problema
pode ser o de como resolver ou favorecer
o encontro, ou, simplesmente, o da comunicação
eficaz e perceptível.
saber dar um nome às coisas ou às
situações serve como base essencial
de entendimento.
porém, na confusão dos sentidos,
completada pela simples ignorância
da primeira vez constitui uma não
resolução do problema.
a capacidade que tens de me turvar
o entendimento das coisas, - da análise
objectiva dos factos
do poder de análise das coisas, das mais simples... (que essas são as mais difíceis)
e da significação efectiva, ou pelo menos.

mentira 4
Vão-se os dedos
ficam os anéis.
mentira.
só as pernas.

mentira 3
a catarse é uma puta.

mentira 2
a dor que se encrava em nós
pode não ser voluntária
nunca é
da dor                o prazer
das contracções          a preparação
minuto              a              minuto
a certeza de que
do sufoco qual
mergulho no mar
virá o submergir

à tona
o ar violentamente sugado
"de pulmões castos não respiraremos"
(grita a Luiza)

mentira 1
Mentira? 
Quantas mentiras cabem numa mentira?
Uma boa mentira tem sempre uma boa verdade?
Mentes?
Mente?
Minto?
A segunda e a terceira pessoa do singular
podem mentir, ou é uma questão cerebral?
Do género quantas mentes cabem no meu corpo?
Mentir não é uma mente?
Mentoliptus?

terça-feira, 22 de março de 2016

domingo, 20 de março de 2016

Agora não vou falar de factos

...

Que a terra coma os meus olhos
se eles não observaram com eficácia

...

Do quadro da mulher titânica a preto e banco de perna cruzada em cima da caixa de electricidade numa esquina em um qualquer canto de uma determinada Capital.

Da mulher do Teodoro, queimada com pontas de cigarro ou ameaçada com a ponta de um frasco de perfume contra as suas costas que, ela pensara ser, segundo o que dizia o marido, um revólver.

Da mulher de Fernando, depois de Arlindo, posta fora de casa – com os filhos dentro – a porta trancada e barricada por não querer satisfazer desejos que não tinha.

Da mulher na sala de espera do centro de saúde, ligeiramente inflectida em caos que ao ver outra pobre mulher a pedir esmola para dar de comer aos filhos entra em pranto desconsolado.

Ainda dessa mulher. Quando ouviu um homem e uma mulher. A conversarem sentados na relva. Ele dizia, impondo, algo como “vai lá pôr o teu corpo a render. Vai lá para o café”.

Ainda dessa mesma mulher. Enquanto naquela sala de espera. Factos alheios e inesperados (são sempre?!) aumentam-lhe a adrenalina, aumentando desesperadamente o pranto que não era leve.

Ainda dessa tal mulher. Enquanto vê, bem ao longe, como miragem sobre o horizonte outra mulher. Tão parecida consigo. Aliás, igual. Essa outra dá passos bem indefinidos. As suas pernas, o seu aparelho locomotor tão desajustado.

A. Egas