Agora não vou falar de factos
...
Que a terra coma os meus olhos
se eles não observaram com eficácia
...
Do quadro da mulher titânica a preto e
banco de perna cruzada em cima da caixa de electricidade numa esquina
em um qualquer canto de uma determinada Capital.
Da mulher do Teodoro, queimada com
pontas de cigarro ou ameaçada com a ponta de um frasco de perfume
contra as suas costas que, ela pensara ser, segundo o que dizia o
marido, um revólver.
Da mulher de Fernando, depois de
Arlindo, posta fora de casa – com os filhos dentro – a porta
trancada e barricada por não querer satisfazer desejos que não
tinha.
Da mulher na sala de espera do centro
de saúde, ligeiramente inflectida em caos que ao ver outra pobre
mulher a pedir esmola para dar de comer aos filhos entra em pranto
desconsolado.
Ainda dessa mulher. Quando ouviu um
homem e uma mulher. A conversarem sentados na relva. Ele dizia,
impondo, algo como “vai lá pôr o teu corpo a render. Vai lá para
o café”.
Ainda dessa mesma mulher. Enquanto
naquela sala de espera. Factos alheios e inesperados (são sempre?!)
aumentam-lhe a adrenalina, aumentando desesperadamente o pranto que
não era leve.
Ainda dessa tal mulher. Enquanto vê,
bem ao longe, como miragem sobre o horizonte outra mulher. Tão
parecida consigo. Aliás, igual. Essa outra dá passos bem
indefinidos. As suas pernas, o seu aparelho locomotor tão
desajustado.
A. Egas